ÁGORA+10_RECONSTRUINDO RICARDO III
Ágora +10 é o título que damos às atividades que estão em desenvolvimento nesse ano de comemoração do décimo aniversário do Ágora Teatro. Um dos mais importantes objetivos dessas atividades é discutir as questões estéticas e, mais particularmente, teatrais, com que nos detivemos até agora. Partilhar todos os aspectos do fazer teatral, colaborativamente, com nosso público e com toda a sociedade interessada é, como sempre foi, um aspecto importante das atividades do Ágora. Assim, iniciamos uma conversa aberta com Celso Frateschi (ator, diretor e fundador do Ágora) e com os demais artistas que trabalharam ou trabalham atualmente nessa casa. Participe! A idéia aqui não é ter nem perguntas nem respostas definitivas, mas usar esse espaço virtual como uma janela para o trabalho teatral cotidiano, quente, que ocorre no Ágora +10.
André Piza: Celso, quando começamos a montagem do Antes do Café, uma questão importante sobre a qual trabalhamos foi encontrar o avesso dessa mulher que expõe a sua relação com o marido. Vc usou a expressão ”cubista” para se referir à impressão que poderíamos ter com três mulheres fazendo a mesma personagem. Nesse sentido, a tensão dramática colocada pelo enredo não era tão importante quanto o estudo microscópico dessa mulher com cuja questão a platéia poderia se deter. Houve quem criticasse essa escolha por dizer que isso distancia a montagem do que foi proposto pelo autor. Mas esse modo de traí-lo não é o melhor modo de ser fiel a ele?
Creio que o cânone dramático já não resolve por si só a complexidade das relações humanas desde os anos vinte do século passado. Os limites dramáticos já foram rompidos em todas as linguagens artísticas e talvez até mais radicalmente no teatro por mestres de todas as correntes estéticas. De Brecht a Artaud, de Meyerhold a Becket, de Grotowski , de Brook a Bob Wilson, todos romperam de forma radical os preceitos dramáticos para poder tentar revelar os mistérios da humanidade. Aqui no Brasil apesar de tardiamente, também saltamos fora das regras dramáticas com o trabalho genial do Abujamra, Zé Celso, Boal, Antunes, e mais recentemente com Tô Araujo, Sérgio Carvalho, Marco A. Rodrigues, Cibele Forjaz, Paulo Moraes , Kiki Diaz e muitos outros. Percebemos já há algum tempo que o ser humano só se define em suas relações. É nas relações entre as pessoas que se forja o individuo ou mais precisamente que o indivíduo se forja. Vivemos uma época fantástica quando, depois de muito tempo de grandes verdades, de uma visão dualista de guerra fria, de séculos de predominância dos dogmas judaico-cristãos , para alguns e de Islamismo e outras religiões bárbaras para outros para outros, de milênios de certo ou errado, de bem e de mal, onde sempre fomos os bons e os outros sempre foram os maus, respiramos um momento que nos sentimos novamente encorajados para desconfiar das verdades milenares abandonando a simplicidade do OU e assumindo radicalmente a complexidade do E. E durma-se com o barulho dessas redescobertas. Aboliu-se as vítimas, somos mais uma vez responsáveis por nossos atos. É terrível a liberdade de poder construir nossos destinos. Somos novamente responsáveis por nossa tragédia ou comédia humana. Nosso caráter se constrói por nossas escolhas, Mais uma vez foi decretada a abolição do drama. O’Neill registrou sua visão dessa operária em 1916, da infelicidade da vida com seu marido poeta. Foi arrojado na sua escrita ao construir esse diálogo que só uma personagem fala. É evidente que não nos arrogamos à genialidade do autor e quando nos interessamos pelo texto percebemos que a forma dramática, como o espetáculo é montado desde a década de dez, não seria capaz de desvelar todas as facetas da personagem. Foi nossa atitude de “fidelidade” que nos indicou o caminho da “traição”. Durante os ensaios falava muito em cubismo para poder explicar a necessidade que sentia de expor aquela mulher livre da visão limitada do cânone dramático que a coloca como vítima de sua condição feminina e ao mesmo tempo algoz de seu companheiro, a ponto de levá-lo ao ato fatal. Dividimos a pequena peça em um prólogo e oito movimentos que foram tratados como micro espetáculos com títulos próprios. Em cada uma dessas unidades, cada uma das atrizes trabalhou com um objetivo e característica dominante diferentes das outras duas. Assim podemos apresentar essa personagem sob pelo menos 27 ângulos diferentes. Buscamos entender como reagimos diante da mesma situação ao mesmo tempo extremamente iguais e extremamente diferentes. O exemplo cubista apareceu como recurso do trabalho do diretor com seus atores, mas é também resultado desse trabalho. Por fim, na verdade, não abandonamos o dramático, pois ele é parte
constitutiva do espetáculo. Apenas o relativizamos com outros caminhos também já trilhados no decorrer do século vinte. O mais fantástico desse nosso tempo é o poder nos libertar das lentes grossas das ideologias e pelo menos tentar chegar mais perto da complexa simplicidade do real.
Celso, no último encontro do “Teatro, Vinho e Pensamento” [nota: que ocorre toda primeira quarta-feira do mês] tanto a Cibele Forjaz como a Georgete Fadel comentaram sobre o estranhamento (brechtiano) ser ainda importante para o teatro. A Cibele, especialmente, demonstrou dar muita importância para isso no seu trabalho. Vc acha que é isso o que pode, de fato, diferenciar a experiência que o público tem no teatro em relação às outras mídias?
Acho que o efeito do estranhamento está para o teatro como o telescópio está para a astrofísica. Efeitos estéticos que nos sugerem o estranhamento estão presentes em todas as mídias, mas creio que o que diferencia o teatro ainda é o fato da presença do ator de corpo presente no momento da representação, conduzindo o processo de construção do prazer e do conhecimento. O ator é o mediador principal e o recurso do estranhamento potencializa de maneira definitiva a eficácia da sua performance. É na atitude e na sutileza das suas opções que o ator valoriza os conteúdos de sua construção artística. A técnica do estranhamento é instrumento com o qual o ator revela a vida do homem em sociedade mostrando-a como passível de ser transformada uma vez que construída pelo homem. Com o estranhamento a ator pode isolar e ampliar determinadas características das personagens e oferecê-las à fruição da platéia. Assim como com um telescópio posso observar detalhes da superfície lunar e mesmo das estrelas e com isso, prazerosamente, aprender detalhes impossíveis a olho nu, o efeito de estranhamento, liberta o ator dos limites da percepção naturalista e o permite ampliar o seu conhecimento e a sua expressão.
Celso, nessa semana estreamos Mauser, do Heiner Müller no Ágora, uma montagem que for produzida com os alunos do último semestre da EAD, onde vc é professor. [nota: na peça, um carrasco da revolução é condenado à morte por agir fora das regras impostas pela própria revolução e tem a tarefa de ser o seu próprio executor]. Na peça, a situação de guerra civil, estabelece uma condição em que todas as decisões e as ações são radicais. Comentamos também no Teatro, Vinho e Pensamento último que há, hoje, muitos fundamentalismos e, muitas pessoas ligadas à práticas e pensamentos fundamentalistas. Por outro lado, em nosso trabalho, procuramos uma outra via, talvez oposta ao fundamentalismo. Como o teatro pode dialogar com essa realidade?
Para mim o teatro só tem sentido se dialogar com essa realidade. Vivemos o embate entre os que pensam e professam a imposição de verdades inquestionáveis. Pertenço ao grupo dos que se opõe totalmente aos fundamentalismos, sejam eles religiosos, ideológicos, étnicos e o que sejam. E me oponho não apenas por questões morais, mas antes por questões éticas. As visões fundamentalistas tendem a esconder diferenças internas ao aumentar as externas. Impedem o avanço ao mistificar a realidade. Das milícias anti-drogas ou anti-tabagista aos talebãs, creio que devemos questioná-los todos. Para mim o teatro deve dialogar com essa realidade revelando a beleza da complexidade dos fenômenos em toda a sua diversidade e expondo esse quadro para que possamos identificá-lo e conviver com essa realidade em permanente e vertiginosa transformação. Transformar esse enunciado em estética é o desafio que creio, devemos enfrentar no Ágora.
Buenas! Aqui vai um link sobre uma critica a pç Antes do café, se tiverem curiosidade…
Abraço!
Com estréia prevista para 29 de outubro, “Reconstruindo Ricardo III – Parte 1” é o próximo espetáculo que o nosso núcleo de trabalho permanente vai apresentar. Sendo parte do Ágora+10, começamos esse trabalho de forma diferente da que ocorreu na primeira montagem, em 2006. A idéia agora é extender a pesquisa tanto pelo site como pelo contato com o público nas apresentações. Para quem tem interesse em participar desse trabalho aqui vão as regras do jogo:
1. No blog (dentro do artigo CONVERSA ABERTA ÁGORA+10) vamos fazer posts regulares sobre o trabalho, lançar a todos as perguntas que norteiam a pesquisa (que venham muitas mais perguntas e respostas!), documentar o processo com imagens e textos, e levar os posts de todos para discussão nos ensaios.
2. No teatro, após as apresentações, ficaremos no café do teatro para conversas informais e prazerosas com o público (certamente tomando alguma coisa…) e, com o autêntico espírito da Ágora grega, as vozes de todos terão o seu lugar.
3. Não sabemos ainda como gerenciar, mas estamos dispostos a abrir os ensaios para quem quiser estar presente no trabalho durante a semana. Quem quiser vir, deve apenas entrar em contato com o teatro (por telefone ou email – agora@agorateatro.com.br) e conversar com a gente sobre como e quando pretende vir.
Na web, nos ensaios ou nas apresentações, o Ágora se liga à cidade. Teatro é um lugar de prazer e produção de conhecimento.
Uma das primeiras leituras que fizemos para nos aproximarmos de “Ricardo III” foi (re)ler o primeiro capítulo de “Shakespeare, nosso contemporâneo”, de Jan Kott, Ed. Cosac & Naify.
O autor revela que a lógica da roda da fortuna é uma força importante nas peças históricas do bardo. Assim, o herói que se torna rei em uma peça transforma-se no vilão da próxima. Impressionados com os terríveis adjetivos que qualificam Ricardo durante toda a peça, nos perguntamos como seria ouvir todas as detratações e todos os elogios (se é que havia algum…) numa lista única: irônico seria tomar ciência do que dizem aqueles que estão colocados do lado dos heróis nessa peça cujo vilão é o maior braço que gira O Grande Mecanismo… talvez uma pequena angulação nas lentes dos nossos óculos seja suficiente para vê-los em outro lado da história. Aqui vai a lista…
DETRATAÇÕES
Maldito
miserável
desumano
disforme
demônio
ministro do inferno
demônio imundo
massa informe de mesquinha deformidade
braços comandado pelo inferno
vilão
animal
gangrena pestilenta de homem
homem torpe
alma sanguinária
causa e efeito maldito
homicida
sapo tão nojento
hipócrita
falso
infame
vil assassino
nobre vilão
cão
perturbador da paz desse mísero universo
aborto
suíno devastador
marcado ao nascer pelo espírito do mal
difamador do ventre de sua mãe
produto maldito dos rins de seu pai
trapo de honra
abominável
aranha ventruda
peçonhento sapo corcunda
poderoso
perigoso
javali
sanguinário
víbora de olhar assassino
lobo
rastejante mastim do inferno
cão , que teve os dentes antes dos olhos, para despedaçar cordeiros e sugar-lhes o sangue.
odioso destruidor da obra de Deus
tirano que reina nos olhos inchados das almas chorosas
cão voraz
negro espião das trevas,
filho maldito
vilão impiedoso
carga dolorosa
turbulento
colérico
temerário e impetuoso
orgulhoso, ardiloso e cruel,
perigoso
Sanguinário
coração de pedra
peito de pedra
javali sanguinário
suíno imundo
tirano sanguinário e homicida
pedra suja e imoral
ELOGIOS
nobre príncipe
religioso, santo, devoto
Começamos o trabalho estudando o primeiro ato. O que é esse ato? Queríamos (re)construí-lo. Nosso trabalho avançou um pouco e juntamos mais algumas cenas. Elas estão aqui na ordem em que estamos trabalhando nelas (já com algumas adaptações…). QUAL É O NEXO QUE VC VÊ ENTRE ELAS, NESSA ORDEM? QUE PEÇA É ESSA?
Rua de Londres
CIDADÃO
Ricardo queria fazer mais milagres do que um homem é capaz, ousando enfrentar a tudo e a todos.
CIDADÃO
Stanley o abandonou e informou Richmond sobre os planos de batalha de Ricardo.
CIDADÃO
Seu cavalo fugiu e ele continuou combatendo em pé. Ele procurou Richmond até na garganta da morte, mas já estava tudo perdido.
CIDADÃO
Dizem que o javali gritava desesperado: Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
CIDADÃO
Imbecil! Nunca ví um javali se equilibrar no lombo de um cavalo.
CIDADÃO
Foi o jogo que ele escolheu jogar na vida e agüentou até o final, mesmo quando lhe parecia que havia seis Richmonds no campo de batalha e ele já tinha matado seis.
CIDADÃO
“Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!”
O cão sanguinário está morto, mas seu cavalo sobreviveu.
Rua de Londre. Entra Ricardo.
RICARDO DE Glocester
Agora que o sol de York acaba de transformar o inverno do nosso descontentamento num glorioso verão. E que todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão sepultadas nas mais profundas entranhas do oceano… Agora que as nossas cabeças estão ornadas pelas coroas da vitória e que nossas feridas são exibidas como troféus… Os alarmes sinistros da guerra foram silenciados por alegres reuniões. Nossas marchas militares por graciosas danças. Não há mais rugas no rosto carrancudo e inflexível da guerra. Os cavalos não estão mais armados para meter medo ao inimigo. Agora todos cavalgam nos quartos das damas embalados pelo doce e lascivo som dos alaúdes.
Mas eu que não fui talhado para conquistas eróticas e nem possuo motivos para cortejar um espelho. Eu, toscamente engendrado, não tenho a majestade do amor para pavonear-me diante de uma ninfa viciosa e sedutora. Privado de proporção e harmonia sou um erro da pérfida natureza. Eu, disforme, inacabado, lançado antes do tempo para esse mundo que respira, sou tão estropiado que os cães latem quando cruzo, mancando, perto deles.* Pois bem, nesse tempo mole e ocioso de paz, vivo a passear preguiçoso embaixo do sol para espiar a minha sombra e dissertar sobre a minha deformidade*.
E já que não posso representar o papel de amante para desfrutar a suavidade desses dias*, resolvi encarnar o de vilão e odiar esses prazeres desprezíveis que me cercam. Conspirei, caluniei e urdi tramas perigosas em meio a sonhos, difamações e absurdas profecia, para que o meu irmão Clarence e o meu irmão Rei Eduardo se odeiem mortalmente. E se o Monarca for tão leal e justo quanto eu sutil, falso e traiçoeiro*, meu irmão Clarence será encarcerado ainda hoje em razão de uma profecia que diz que G será o assassino dos herdeiros de Eduardo. Mas agora, que meus pensamentos mergulhem no fundo da minha alma. Aí vem meus bracos e valentes camaradas!
Viemos buscar a licença para que possamos entrar onde ele se encontra.
RICARDO
Aqui está. Quando terminarem o serviço, sigam para o meu Castelo. Senhores, sejam rápidos na execução e não dêem ouvidos às suas súplicas. Clarence é bom orador e temo que ele desperte a piedade em seus corações.
ASSASSINO II
Nada de conversas. Quem fala muito, faz pouco. Esteja certo que usaremos nossas mãos e não as nossas línguas.
RICARDO
Que de seus olhos caiam pedras quando dos dele escorrerem lágrimas. Rapazes, gosto de vocês. Ao trabalho!
ASSASSINOS I e II
Assim faremos meu nobre senhor**.
ATO I
cena IV
BRAKENBURY
CLARENCE
ASSASSINO I
ASSASSINO II
Torre de Londres
BRAKENBURY
Hoje o senhor está muito abatido.
CLARENCE
Tive uma noite atormentada, cheia de pesadelos e visões terríveis. Não agüentaria outra noite dessas ainda que fosse para comprar um mundo de dias felizes. Foram horas de terror.
BRAKENBURY
Que sonho foi esse, meu lorde?
CLARENCE
Sonhei que tinha fugido da Torre e estava indo para Borgonha de barco. Meu irmão Ricardo estava comigo. Ele me convidou para deixar a cabine e ir para o convés. De lá, olhávamos para a Inglaterra e lembrávamos os tempos intermináveis da guerra entre York e Lancaster. Enquanto caminhávamos, Ricardo tropeçou no chão escorregadio do convés. Tentei ampará-lo, mas ele me agarrou e não sei se por acidente ou intenção, atirou-me em meio às irritadas ondas do mar. Que dor eu sentia ao me afogar, o estrondo das ondas em meus ouvidos, as visões da morte em meus olhos. Vi mil outros naufrágios. Dez mil homens sendo devorados por peixes, barras de ouro, âncoras enormes, montanhas de pérolas, pedras preciosas, jóias de valor incalculável. Algumas alojadas dentro dos crânios dos mortos, no buraco antes habitado por olhos, como que por zombaria, essas pedras cintilantes cortejavam o viscoso abismo do oceano e escarneciam dos ossos espalhados por toda parte.
BRAKENBURY
Na hora da morte o senhor teve a tranqüilidade de olhar todos esses segredos da profundeza.
CLARENCE
Acreditava que sim. Ansiei muitas vezes por entregar a minha alma, mas sempre as ondas invejosas detinham o meu espírito e não o deixava ganhar o vazio, infinito e errante, e a mantinha presa em meu peito inchado que estava a ponto de explodir e expelir a minha alma no mar.
BRAKENBURY
E o senhor não acordou em meio a tanta agonia?
CLARENCE
Não, não. O meu sonho se prolongou para além da vida e a tempestade então se concentrou dentro da minha alma. Atravessei o rio da melancolia cruzando o reino da noite eterna. Fui saudado pelos meus mortos ilustres que gritavam: “Que castigo por perjúrio pode este reino das sombras oferecer ao falso Clarence?”. Em seguida esvaneceu-se. Surgiu então uma sombra fugidia que se assemelhava a um anjo de cabelos luminosos. Ao se aproximar vi que seus cabelos estavam embebidos de sangue. Ele gritava: “Chegou Clarence, o perjuro, o falso Clarence de duas faces que me apunhalou pelas costas”. Fui cercado por uma legião de demônios que lançavam no fundo de meus ouvidos gritos tão monstruosos que me fizeram despertar. Apavorado, por um bom tempo não conseguia me convencer que não estava no inferno, tamanha a aflição causada pelo sonho.
BRAKENBURY
Não é de estranhar o pavor que sentiu, meu lorde. Sinto terror só de ouvir o seu relato.
CLARENCE
Cometi todos esses crimes que agora testemunham contra a minha alma por amor ao Rei e veja como ele me retribui.
Oh! Deus, se minhas orações mais íntimas não podem aplacar a sua ira e ainda deseja punir os meus pecados, dirija a sua vingança apenas sobre mim. Poupa a minha esposa e meus infelizes filhos, eles são inocentes. Brakenbury, fica um pouco mais aqui comigo. Minha alma esta pesada e, eu gostaria de tentar dormir.
BRAKENBURY
Ficarei, meu lorde. Que Deus lhe conceda um sono tranqüilo.
(Pausa) Os pesares subvertem o tempo e as horas de repouso. Faz noite da manhã e da noite, o meio dia. A única glória dos príncipes, são seus títulos. Honras externas para torturas internas. Por uma felicidade imaginária criam um mundo conturbado, solitário e infeliz. Assim, entre um título de nobre e um nome humilde, a única diferença é a fama exterior.
(Entram os assassinos)
ASSASSINO I
Quem está aí?
BRAKENBURY
O que vocês querem e como chegaram até aqui?
ASSASSINO I
Queremos falar com Clarence e chegamos aqui com as nossas próprias pernas.
BRAKENBURY
Só isso? Porque são tão breves?
ASSASSINO II
Melhor sermos breves que tediosos. Entregue-lhe a ordem e pare de falar.
BRAKENBURY
Devo entregar o Duque de Clarence em suas mãos. Não devo discutir os motivos para permanecer inocente do que possa vir a acontecer. Alí esta o Duque dormindo e lá estão as chaves. Contarei ao Rei que entreguei o meu trabalho aos cuidados de vocês.
ASSASSINO I
Faça isso! É um ato de sabedoria. Passe muito bem!
(Brakenbury sai)
ASSASSINO II
E então? Devo matá-lo enquanto dorme?
ASSASSINO I
Não! Assim ele dirá, quando acordar, que agimos com covardia.
ASSASSINO II
Quando ele acordar? Ele só iria acordar no dia do Juízo.
ASSASSINO I
E então ele dirá que o matamos enquanto dormia.
ASSASSINO II
A palavra juízo fez nascer em mim uma espécie de remorso.
ASSASSINO I
Está com medo?
ASSASSINO II
Não de matá-lo, pois cumpro ordem ao fazer isso. Mas tenho medo de ser condenado ao inferno por matá-lo e contra isso não há ordem que me defenda.
ASSASSINO I
Pensei que estava determinado.
ASSASSINO II
Estou. Vou deixá-lo viver.
ASSASSINO I
Contarei sua frouxidão ao duque de Glocester.
ASSASSINO II
Espere um pouco. Esse meu ataque de piedade não costuma durar muito. É só o tempo de eu contar até vinte.
ASSASSINO I
Como é que você se sente agora?
ASSASSINO II
Na verdade ainda me sobra um restinho de consciência.
ASSASSINO I
Pense no prêmio que receberá quando tivermos realizado o serviço.
ASSASSINO II
Que morra! Tinha esquecido do pagamento.
ASSASSINO I
Onde está a sua consciência agora?
ASSASSINO II
Na bolsa do Duque de Glocester.
ASSASSINO I
Quando ele abrir a bolsa para nos pagar, a sua consciência voará.
ASSASSINO II
Deixa voar. Pouca gente ou mesmo ninguém quer saber dela.
ASSASSINO I
E se ela voltar outra vez para você?
ASSASSINO II
Não quero pacto com ela. A consciência é uma coisa perigosa. Transforma o homem num covarde. Não se pode roubar sem que ela o acuse. Não se pode deitar com a mulher do vizinho sem que ela o denuncie. Não se pode blasfemar sem que ela o censure. A consciência é um espírito tímido e envergonhado que se amotina no peito de um homem. Só cria problemas. Uma vez, me fez devolver uma bolsa cheia de ouro que eu tinha achado. Ela arruína todos que com ela se preocupam. Já foi expulsa de todos as cidades e vilas por ser coisa perigosa. Todo homem que tem a intenção de viver bem deve confiar apenas em si mesmo e dispensar os serviços de sua consciência.
ASSASSINO I
Pois é. Agora ela se alojou no meu cotovelo e está tentando me convencer a não matar o Duque.
ASSASSINO II
Peça ao diabo que ilumine o seu espírito e expulse a consciência de seu corpo. Ela só atrapalha.
ASSASSINO I
Eu tenho uma formação sólida. Ela não me vencerá.
ASSASSINO II
Assim que fala um valente que respeita o tamanho da reputação que tem. Vamos ao trabalho!
ASSASSINO I
Vamos acertar a sua cabeça e depois jogá-lo no barril de vinho que está no quarto ao lado.
ASSASSINO II
Excelente idéia. Depois a gente faz uma sangria com ele.
ASSASSINO I
Fala baixo, vai acordá-lo.
ASSASSINO II
Mate-o.
ASSASSINO I
Não! Vamos falar com ele.
CLARENCE
Em nome de Deus, quem é você?
ASSASSINO II
Um homem, como você.
CLARENCE
Não como eu de sangue real.
ASSASSINO II
Nem você como eu de sangue leal.
CLARENCE
Sua voz é de trovão, mas seu aspecto é humilde.
ASSASSINO II
A minha voz é a do Rei. O aspecto é o meu mesmo.
CLARENCE
Quem mandou vocês aqui? Vieram para que?
ASSASSINOS I e II
Para…para…
CLARENCE
Para me matar?
ASSASSINOS I e II
Isso mesmo!
CLARENCE
Se quase não tem coragem para dizer isso, não terão coragem para fazê-lo.
Alguma vez eu os ofendi?
ASSASSINO I
A nós não, mas ao Rei.
CLARENCE
Em breve eu e Rei faremos as pazes.
ASSASSINO II
Nunca, meu lorde. Prepare-se para morrer.
CLARENCE
Vocês foram escolhidos no mundo dos homens para matar um inocente. Qual foi o meu crime? Onde estão as provas? De que me acusam? Que júri deu o veredicto? Quem ditou a minha sentença de morte antes de eu ser condenado pelos processos legais? Crime é ameaçar-me de morte desta forma. Eu os aconselho, se desejam a clemência divina, a irem embora. É abominável o que vocês estão tentando fazer.
ASSASSINO I
Nós apenas estamos cumprindo ordens.
ASSASSINO II
E a ordem foi determinada pelo nosso Rei.
CLARENCE
Se alguém está pagando para me matarem, procurem o meu irmão Ricardo de Glocester que pagará mais a vocês pela minha vida do que Eduardo pela notícia de minha morte.
ASSASSINO II
O senhor está enganado, seu irmão o odeia.
CLARENCE
Não. Ele me ama e tem muito carinho por mim. Vão até ele e digam-lhe que fui eu quem os enviou.
ASSASSINO I
É o que faremos!
CLARENCE
Ricardo é um bom homem**!
ASSASSINO I
Tão bom quanto a neve é boa para a plantação*. O senhor está se iludindo. Foi ele quem nos mandou aqui para matá-lo.
CLARENCE
Não pode ser, ele chorou o meu destino, me abraçou e jurou não descansar até conseguir a minha liberdade.
ASSASSINO I
É o que ele está fazendo agora. Vai libertá-lo da escravidão desse mundo e enviá-lo para a felicidade dos céus.
ASSASSINO II
Faça as pazes com Deus, porque o senhor irá morrer.
CLARENCE
Se um de vocês fosse filho de algum príncipe e estivesse preso como eu, e dois assassinos aparecessem, vocês não implorariam pela própria vida? Caro amigo, sinto que há alguma piedade em seu rosto. Fique ao meu lado e rogue por mim! Que mendigo não se apiedaria de um príncipe que mendiga?
ASSASSINO II
Vire a cabeça, meu lorde!
Tome isto e isto. Se ainda for pouco, vou afogá-lo no barril de vinho.
ASSASSINO I
Que ato sangrento e desesperado. Gostaria de ser Pilatos para lavar as minhas mãos desse crime.
ASSASSINO II
Que aconteceu? Porque você não me ajudou? Pelos céus, o Duque saberá de sua covardia.
ASSASSINO I
Preferia que ele soubesse que tinha salvado o seu irmão. Pode ficar com todo o pagamento. Estou arrependido. (sai)
ASSASSINO II
Vai covarde! Eu vou esconder o corpo até que o duque ordene o seu enterro. Fugirei assim que receber a recompensa. Todos saberão do assassinato e eu não posso ficar por aqui.
GLOCESTER
Cometo o crime e sou o primeiro a clamar por justiça. Suspirando as palavras das escrituras, digo que Deus manda compensar o mal com o bem. E é desse jeito que eu encubro a minha vilania despida. Uso os trapos dos livros sagrados e finjo-me de santo sempre que demonizo.
Agora, que Deus acolha o meu pobre e enfermo irmão, Rei Eduardo, em sua misericórdia e deixe o mundo para que eu possa mover o meu entusiasmo!
Então eu casarei com Lady Anne. Que importa que eu tenha matado seu marido e o pai de seu marido? O caminho mais curto para recompensar a moça é tornar-me seu marido e seu pai.
Entra Lady Ana.
ATO I
cena II
ANA
RICARDO
ANA
Pobre imagem gelada de um Rei deposto. Pálidas cinzas da Casa de Lancaster. Restos exangues deste sangue real; que me seja permitido invocar o seu espírito para que escute as lamentações e os gemidos da pobre Ana, esposa de Eduardo, seu filho assassinado, apunhalado pelas mesmas mãos que causou estas feridas. Essas fendas por onde escaparam a sua vida, verto o bálsamo inútil de meus olhos.
Maldita a mão que o feriu. Maldito coração que teve coração para tanto. Maldito o sangue que fez jorrar este sangue.
Que sobre o miserável que com sua morte causou a nossa miséria, caiam mais desgraças do que aquela que eu posso desejar a serpentes, aranhas e a todos os répteis venenosos que existam.
Se tiver filho, que seja um aborto monstruoso que venha a luz antes do tempo, que sua aparência seja horrível, desumana e disforme que até a própria mãe sinta pavor em vê-lo e que esta seja a herança de seu poder maléfico.
Se algum dia tiver esposa, que seja mais desgraçada pela morte dele do que eu sou agora pela morte de meu jovem senhor e pela sua.*
ANA
Que negra magia evocou este demônio*para impedir um ato devoto de caridade?
ANA
Fora daqui ministro do inferno*. Você só tinha poder sobre o seu corpo mortal; mas não sobre a sua alma. Suma daqui!
RICARDO
Doce santa, por caridade, menos maldição!
ANA
Demônio imundo*, em nome de Deus, não nos atormente mais! Dessa terra feliz você fez o seu inferno, enchendo-a com gemidos e gritos de maldição. Se sente prazer em contemplar a sua abominável obra, contempla aqui este exemplo de sua carnificina. Veja! As feridas de Henrique morto abrem as suas bocas congeladas e sangram mais uma vez! Envergonhe-se massa informe de mesquinha deformidade*, envergonhe-se já que é a sua presença que faz jorrar o sangue das veias geladas e vazias onde nenhum sangue restava*. É o seu feito monstruoso e desumano que provoca esse dilúvio contrario a toda a natureza*.
Oh Deus, criador deste sangue, vinga a sua morte.
Oh terra, que bebe este sangue, vinga a sua morte.
Que o céu lance um raio de fogo sobre o assassino.
Ou então terra, abra a sua boca profunda e devore-o vivo assim como suga o sangue deste bondoso Rei morto cruelmente por um braço comandado pelo inferno*.
RICARDO
A senhora ignora as leis da caridade que ordenam retribuir o mal com o bem e bendizer os que nos maldizem.
ANA
Vilão*, você ignora as leis de Deus e as leis dos homens. Nenhum animal* por mais feroz que seja desconhece a piedade.
RICARDO
Eu não a conheço, logo não sou um animal.
ANA
Que maravilha quando os demônios dizem a verdade!
RICARDO
Mais maravilhoso ainda é quando os anjos se enfurecem assim.
Permita divina perfeição de mulher, que eu possa me defender desses crimes supostamente a mim atribuídos.
ANA
Permita gangrena pestilenta de homem*, acusar a sua pessoa por tantos crimes sobejamente conhecidos.
RICARDO
Mulher mais formosa que qualquer língua pode expressar, peço apenas uma oportunidade para me defender.
ANA
Homem, mais torpe que qualquer coração pode imaginar*, sua única defesa é o seu próprio enforcamento.
RICARDO
Esse desespero seria a minha acusação.
ANA
E por esse desespero poderia se desculpar vingando com sua morte a injusta carnificina que cometeu.
RICARDO
Eu não matei o seu marido.
ANA
Então ele está vivo?
RICARDO
Não, ele está morto. Assassinado pelas mãos de Eduardo.
ANA
Mentira! A Rainha Margarida viu a sua espada manchada com o sangue dele. A mesma espada que apontou contra o peito dela e cuja ponta seus irmãos desviaram a tempo.
RICARDO
Fui ofendido pela língua caluniosa de Margarida que me acusou de uma culpa que era deles.
ANA
Foi provocado pela sua alma sanguinária que só deseja carnificinas*. Você não matou este Rei?
RICARDO
Concordo.
ANA
Concorda porco espinho? Então Deus também concorda que você seja condenado por essa ação maldita. Ele era gentil e virtuoso.
RICARDO
Digno do Rei dos céus, que o tem agora.
ANA
Ele está no céu para onde nunca você irá.
RICARDO
Ele que agradeça pelo favor de tê-lo mandado para lá. Ele nasceu para o céu, não para a terra.
ANA
E você nasceu para o inferno*.
RICARDO
Nasci para um outro lugar, se me permite dizer.
ANA
Alguma masmorra?
RICARDO
Sua cama.
ANA
Que a insônia caia sobre a cama onde você se deita.
RICARDO
Assim será até que eu me deite com a senhora.
ANA
Assim espero.
RICARDO
Tenho certeza. Mas gentil Lady Anne, vamos deixar de lado esse agudo assalto às nossas inteligências e passemos a usar um método menos sofisticado. O causador das mortes de Henrique e Eduardo, não seria tão culpado quanto o seu executor?
ANA
Você é a causa e o efeito maldito*.
RICARDO
Sua beleza foi a causa desse efeito. Sua beleza me perseguia nos sonhos incitando-me enquanto dormia a destruir o gênero humano para que eu pudesse viver pelo menos uma hora aquecendo-me em seus doces seios.
ANA
Homicida*! Acreditasse eu nisso e estas unhas arrancariam a beleza do meu rosto.
RICARDO
Meus olhos não aceitariam a destruição de sua beleza. Da mesma forma que o mundo inteiro se alegra com o sol, eu me alegro com sua formosura. Ela é o meu dia e a minha vida.
ANA
Que a noite mais negra escureça o seu dia e a morte a sua vida.
RICARDO
Não se amaldiçoe! Você é o meu dia e a minha vida.
ANA
Quisera ser para poder me vingar.
RICARDO
É um desejo estranho querer vingar-se de quem a ama.
ANA
É um desejo justo e razoável querer vingar-se de quem matou a seu marido.
RICARDO
Quem matou o seu marido, senhora, agiu assim para fazê-la encontrar um marido melhor.
ANA
Não há outro melhor que ele respirando sobre a terra.
RICARDO
Mas está vivo outro que a ama melhor do que ele a amava.
ANA
Onde está esse homem?
RICARDO
Aqui.
(ANA COSPE EM RICARDO) Porque a senhora cuspiu em mim?
ANA
Quisera fosse um veneno mortal.
RICARDO
Jamais brotaria veneno de uma fonte tão doce.
ANA
Jamais escorreria sobre um sapo tão nojento*. Saia da minha frente! Você infecciona meus olhos*.
RICARDO
Seus olhos, minha senhora, contaminaram os meus.
ANA
Tomara fossem de serpente para fulminá-lo.
RICARDO
Tomara fossem para que eu morresse de uma vez porque agora eles me matam em vida, lentamente. Seus olhos extraem dos meus lágrimas amargas. Esses olhos jamais haviam derramado uma única gota de arrependimento. O que nenhum sofrimento conseguiu sua beleza conquistou e meus olhos agora estão cegos de pranto. Jamais supliquei misericórdia a amigo ou inimigo. Minha língua nunca saboreou a lisonja, mas sua beleza é o reino que eu desejo e o meu coração cheio de orgulho suplica e obriga a minha língua a falar. Não mostre em seus lábios tanto escárnio, minha senhora, eles foram feitos para o beijo não para a amargura. Se o seu coração grávido de vingança, não é capaz de perdoar, entrego-lhe o meu punhal para que o enterre, se assim desejar neste sincero coração* e deixe partir a minha alma que a adora. Entrego-me de peito aberto ao golpe mortal e ajoelhado, humilde*, suplico que me mate.
Não, não hesite, eu matei o Rei Henrique, mas foi a sua beleza que me provocou. Depressa! Apunhalei o jovem Eduardo, mas foi o seu rosto celestial que me guiou. (Ana deixa a espada cair). Fique com a espada ou fique comigo.
ANA
De pé hipócrita*! Embora deseje a sua morte, não serei o seu carrasco.
RICARDO
Ordene que eu me mate e eu obedecerei.
ANA
Eu já ordenei.
RICARDO
Mas foi num momento de cólera. Repita agora a ordem e esta mão que por seu amor, matou o seu amor, matará, por seu amor, um amor muito mais sincero. A senhora será cúmplice dessas mortes.
ANA
Quisera conhecer o seu coração.
RICARDO
Ele está todo na minha língua.
ANA
Temo que os dois sejam falsos*.
RICARDO
Então jamais existiu homem verdadeiro*.
ANA
Guarde a espada.
RICARDO
Fizemos as pazes?
ANA
Isso você saberá mais tarde.
RICARDO
Posso manter alguma esperança?
ANA
Creio que todos os homens vivem de esperança.
RICARDO
Por favor, aceite este anel.
ANA
Aceitar não é ceder.
RICARDO
Veja como este anel se ajusta em seu dedo. É assim que o seu peito guarda o meu pobre coração. Use os dois, pois os dois são seus. E se for permitido a este seu dedicado servo que possa implorar mais um favor à sua delicada mão, a sua felicidade estaria confirmada para sempre.
ANA
Qual é o favor?
RICARDO
O favor de deixar estes tristes trabalhos de carpideira para quem tem mais motivos para lamentar e de partir agora para o meu castelo, onde eu, depois de enterrar solenemente este nobre Rei e de regar seu túmulo com lágrimas de arrependimento, a procurarei para servi-la. Por muitos motivos eu suplico que me conceda esse favor.
ANA
Alegra-me vê-lo assim arrependido.
RICARDO
Diga-me adeus!
ANA
Já me despedi. (Sai)
RICARDO
Alguma mulher já foi cortejada dessa maneira? Alguma mulher já foi conquistada em tais circunstâncias? Eu a tenho, mas não a guardarei por muito tempo. Não é incrível? Eu, que matei a seu marido e o seu sogro, conseguí conquistá-la quando seu coração mais me odiava, quando ela tinha a maldição na sua boca e lágrimas nos olhos. Tinha contra mim a testemunha sangrenta da sua vingança, Deus, a sua consciência e este defunto. Não tinha amigos que me ajudassem, só o demônio e a minha hipocrisia. Mesmo assim eu a conquistei. Eu que ceifei a primavera dourada de seu doce príncipe e a deixei viúva num leito de dor. Eu, cujo o todo não se compara à metade de seu Eduardo. Eu, coxo e disforme*. Apostaria um ducado contra a moeda de um mendigo, sempre me enganei ao julgar a minha pessoa. Por minha vida, embora não concorde com isso, ela me acha um homem bem proporcionado e maravilhosamente encantador**. Comprarei um espelho e contratarei vinte ou trinta alfaiates para estudarem as roupas que adornarão o meu corpo. Já que estou reconciliado comigo mesmo, vale a pena investir um pouco para que isso perdure. Mas antes levarei aquele para a cova e depois irei chorá-lo diante de meu amor. E até que eu tenha comprado um espelho, que brilhe o sol, que brilhe muito para que eu possa admirar a minha sombra por onde eu passar.
Vcs não acreditam. Nem eu. Mas acho que a trilha desse Ricardo III será… THE CLASH!!! Let it Rock! Estamos ouvindo o segundo álbum, de 1978: Give’em Enough Rope!. Sentiram a relação?