Machado nos obriga a viver na incerteza

10 de Junho de 2008 às 11:21

“Sobre Devorar e Ser Devorado” é o segundo trabalho de um contato com a obra de Machado de Assis que começou em meados de 2006. À medida que este trabalho avançou, começamos a nos deter sobre a multiplicidade de significados que depreendemos da prosa machadiana. Nos detivemos em perceber como ele constrói os deslocamentos que criam a ironia tão fina e pela qual ele é tão conhecido. Como diz o título do famoso ensaio de Roberto Schwartz, as idéias estão sempre fora do lugar.

Ao contar os fatos, ele, na verdade, não nos dá uma moral da história, mas constrói um vazio, pois, à medida que se lê, as primeiras afirmações não se confirmam perfeitamente em seguida. Na peça, tentamos preservar esse vazio, esse deslocamento ou incongruência, também em relação ao que diz um personagem e a ação que ele realiza.

Nossa tentativa na construção teatral era deixar esse vazio para ser preenchido pela experiência de quem assiste. Não para que a platéia desse uma resposta, mas para que ela enfrentasse o próprio vazio de verdade construído: o imperfeito conhecimento dos fatos e a impossibilidade de dar uma resposta absolutamente segura sobre o caráter dos personagens e até a respeito dos fatos que constroem o enredo da história.

Achamos que na sua época Machado travava um diálogo com a ciência que continua perfeitamente necessário atualmente. O fato de, paradoxalmente à sua característica fundamental de realizar um questionamento incessante sobre a realidade, a ciência tentar também construir verdades que possam ser tomadas tão radicalmente como o são as verdades da religião. Achamos mesmo que, na nossa cultura, a ciência tem tomado solitariamente para si esse papel – e tirado de muitas outras formas de conhecimento o espaço e a validade que elas antes tinham para a discussão da realidade. Alguns exemplos são o próprio teatro, a literatura, o conhecimento comum, diversas tradições populares, etc…

Nesse sentido, a peça é um convite a suportarmos esse incômodo da incerteza e a termos a coragem de dar respostas (localizadas e sabidamente circunstanciais) mesmo sabendo que nunca estaremos amparados pela Verdade (assim, com “v” maiúsculo…).

 

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