Em nome do que?

25 de Março de 2008 às 17:30

“De todos os contos que se acham neste livro (História sem data) há dois que efetivamente não levam datas expressas; os outros a têm, de maneira que este título Histórias sem Data parecerá a alguns ininteligível, ou vago. Supondo, porém,que o meu fim é definir estas páginas como tratando, em substância, de cousas que não são especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o título está explicado. E é o pior que lhe pode acontecer, pois o melhor dos títulos é ainda aquele que não precisa de explicação.” Machado de Assis

‘Conto Alexandrino’, publicado em 1884, é ambientado na Alexandria dos Ptolomeus. Em nome da verdade, um cientista mata lentamente milhares de ratos, procurando comprovar a teoria de que, ao beber o sangue de um animal, o homem adquiria suas características morais. Ao tomar o sangue de ratos, por exemplo, viraria “ratoneiro”, ou seja, ladrão. Os cientistas Stroibus e Pítias, aplicam, um no outro, doses de sangue de rato e comprovam sua teoria, roubando, primeiro, idéias um do outro e, depois, até importantes obras da Biblioteca de Alexandria. Flagrados, são condenados à morte. Na prisão, como os demais, seriam entregues a experiências, sempre em nome da ciência. Escrito em pleno apogeu das teorias evolucionistas de Charles Darwin (1809-1882), este conto de Machado de Assis é uma sátira ao amor cego a uma “causa”.

Machado de Assis anuncia neste conto sua independência de seu tempo, sua extemporaneidade. Com efeito, mais de um século decorrido, verificamos que o tempo atua a seu favor, como um aliado que cronicamente o desvela e fortalece. Fato indiscutível é que o autor não nos quer presos a qualquer data, e nem sequer à descrição que faz de seus próprios personagens.

“Conto Alexandrino” foi à escolha, pois tem os elementos que o grupo procurou para refletir sobre o homem contemporâneo; Neste Machado de Assis preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Por isso, em sua narrativas, pouca coisa “acontece”: há poucos fatos em suas histórias, e todos são ligados entre si por reflexões.

Outra característica que nos instigou a levar esta prosa machadiana ao palco é a análise que o autor faz da própria narrativa, aqui o narrador rompe o envolvimento emocional do publico com a obra proporcionando momentos de reflexão sobre o que está vendo e ouvindo.

A visão deste universo machadiano que levamos ao palco tem as seguintes características: humor negro, este tem duas funções: ora busca criticar o ser humano e suas fraquezas, através da ironia, ora busca demonstra compaixão pelo homem, fazendo o publico refletir sobre a condição humana; pessimismo, não o angustiado nem desesperador. Tende para a ironia e propões a aceitação do prazer relativo que a vida pode oferecer, já que a felicidade absoluta é inatingível para tais personagens.

A natureza, considerada neste conto como todas as forças que estabelecem e conservam a ordem do universo, é ao mesmo tempo o Zero, ponto de criação do ser humano, e o infinito, porque mantém-se impassível diante do sofrimento, que só terá ‘cabo’ com a morte.

Em nome do que, Você faz o que?

 

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